problema das vitaminas do complexo B não é só deficiência, muitas vezes o excesso, a forma errada e a suplementação sem critério, podem se transformar em um problema maior que o anterior.

Já ouviu o ditado “saiu pior a emenda que o soneto”? Pois é, é exatamente sobre isso quando falamos de complexo B, justamente porque esse é um daqueles assuntos que parecem simples até você olhar mais de perto.

Porque existe uma ideia muito comum de que as vitaminas do complexo B são sempre benéficas. Então a pessoa começa a sentir cansaço, ansiedade, dificuldade de concentração, estresse, queda de energia… e automaticamente compra um complexo B.

Eu ja vi pessoas seguindo essa lógica: “se vitamina B participa é bom pra cabeça, então mais vitamina B deve ajudar.”

Só que o corpo humano não funciona assim.

O primeiro problema é que as pessoas tratam “vitamina B” como se fosse uma coisa única, quando na verdade estamos falando de várias substâncias diferentes, com funções diferentes, formas químicas diferentes e comportamentos diferentes dentro do organismo.

E é justamente por conta disso que eu escrevi esse post. A questão aqui é que a mesma vitamina pode existir em formas que o corpo aproveita melhor… e formas que o corpo praticamente precisa “processar” antes de conseguir usar, e se essa conversão não for feita direito, ou se você tomar mais que o corpo consegue converter, teremos a equação perfeita para dar errado.

O problema é que essa conversão não acontece da mesma maneira em todo mundo.

Ela depende de intestino, fígado, genética, metabolismo, alimentação, inflamação crônica e várias outras coisas.

Então duas pessoas podem tomar exatamente o mesmo suplemento e ter resultados completamente diferentes.

A B12 talvez seja o exemplo mais conhecido disso.

A maioria dos suplementos baratos usa cianocobalamina, porque é uma forma estável e barata de produzir. Só que ela não é a forma biologicamente ativa da vitamina, ou seja, o seu corpo precisa transformar ela antes de poder usar.

A questão é que em algumas pessoas isso acontece de forma relativamente tranquila. Em outras, não.

O mesmo vale para o ácido fólico, que muita gente acha que é “folato”, não é.

Ácido fólico é a forma sintética, e muita gente tem dificuldade em converter isso adequadamente para a forma ativa que o organismo realmente utiliza.

Então a pessoa suplementa, o exame às vezes até melhora no papel… mas clinicamente ela continua mal. E aí ela aumenta a dose.

Esse é o ponto onde a suplementação pode começar a fazer mais mal do que bem

Porque vitaminas do complexo B não funcionam isoladamente, elas interagem entre si o tempo inteiro, compartilham vias metabólicas, enzimas e mecanismos de ativação.

Então, no fundo, você não está colocando “energia” no corpo, você está interferindo em um sistema. E sistema desorganizado reage mal até a coisas que deveriam ajudar.

Outro problema é que a indústria trabalha muito mais com marketing do que com fisiologia.

Então você vê aqueles rótulos gigantescos:
“100% da recomendação diária.”
“CONCENTRADO.”
“Complexo B Potencializado”

Isso até chama atenção aos olhos, mas nem sempre faz sentido biológico.

Principalmente porque algumas vitaminas do complexo B já são extremamente abundantes numa alimentação relativamente normal.

A B6 é um ótimo exemplo disso, ela está presente em carnes, banana, batata, frango, peixes, leguminosas… Só que muitos complexos B colocam doses absurdamente altas dela, chegando a 100mg ou até mais.

Só que isso tem um problema, o excesso crônico de B6 pode causar neuropatia periférica.

Quer mais exemplos?

B1 (Tiamina)

É muito utilizada na forma de mononitrato de tiamina, porque é uma forma sintética e estável que os fabricantes adoram porque é barata e tem boa durabilidade.

O problema é que o mononitrato de tiamina tem baixa biodisponibilidade e é mal absorvido pelo intestino, especialmente em pessoas com algum grau de comprometimento digestivo.

Algumas pessoas também reagem com dores de cabeça, náusea e irritação na pele.

Outra forma que você às vezes verá como “superior” é a benfotiamina, um derivado de tiamina solúvel em gordura que tem usos legítimos para certas condições.

O problema é que ela se comporta de forma bem diferente no corpo da tiamina solúvel em água, não se distribui da mesma forma pelos tecidos e não é uma troca direta para o suporte geral da B1.

Mesmo assim, ela é amplamente usada em complexos B.

Vitamina B3

Ele vem em várias formas: niacina, niacinamida, ribosídeo de nicotinamida, cada uma com efeitos muito diferentes no corpo, tolerabilidade diferente e mecanismos diferentes.

A maioria dos complexos B não faz distinção entre o principio ativo das vitaminas, eles simplesmente escolhem o que for mais barato.

A niacina, em particular, causa ruborização, uma onda de vermelhidão, calor e formigamento na pele, o que pode ser alarmante e desconfortável para iniciantes, especialmente nas doses comumente incluídas.

B5 (ácido pantotênico) e B7 (Biotina)

Frequentemente são subdosadas a ponto de serem equivalente a salsinha que você usa para dar uma temperada na comida, muitas vezes as doses são tão baixas que, no fundo, não servem para absolutamente nada.

E eu não falo isso querendo ser perfeccionista, mas é que é isso que guarda a diferença entre um suplemento que realmente funciona e um que te faz mijar mais caro.

Ou seja, as vezes o se formigamento, dormência, sensação estranha nos nervos, dor neuropática, podem estar sendo causado PELA vitamina, e não pela falta dela.

São exatamente os sintomas que muitas pessoas estão tentando tratar quando começam a tomar vitaminas. Então a pessoa sente cansaço, fadiga, fraqueza, começa a suplementar sem critério e sem orientação profissional… e meses depois está pior.

E nem passa pela cabeça dela que o próprio suplemento pode estar participando do problema. Justamente porque existe uma crença moderna muito forte de que “natural” significa seguro, mas não, não significa.

Existe uma diferença enorme entre corrigir uma deficiência real, e simplesmente inundar o corpo com um monte de coisas porque “é natural”.

O corpo humano funciona em equilíbrio, não em exagero.

E o pior é que muita gente suplementa tentando resolver sintomas que não nascem de deficiência vitamínica.

A pessoa está dormindo mal há anos.

Vive em hipervigilância.

Tem alimentação ruim.

Está inflamada.

O sistema nervoso está exausto.

O corpo inteiro perdeu capacidade de sustentação.

Mas ela tenta resolver isso comprando cápsulas, afinal, todo mundo quer um “negocinho pra tomar”.

Então começa um ciclo muito muito comum hoje de mais suplemento, mais estimulante, mais tentativa de “corrigir performance”, enquanto o sistema inteiro continua entrando em colapso.

E isso acontece porque a saúde moderna fragmentou completamente a maneira como as pessoas entendem o próprio corpo.

Tudo virou substância isolada.

Magnésio para ansiedade.

B12 para energia.

Melatonina para sono.

Cafeína para produtividade.

Só que o organismo não funciona em partes separadas, ele é um sistema.

Por isso que duas pessoas podem tomar exatamente o mesmo suplemento e reagirem de maneiras completamente diferentes. Porque o que define a resposta não é só o que está na cápsula, é o estado geral do organismo que está recebendo aquilo.

Isso não significa que suplementação não funciona ou que vitaminas do complexo B não tenham utilidade. Em muitos casos elas têm, e muita.

O problema é transformar suplementação em automatismo.

Sem investigação.

Sem contexto.

Sem olhar para o sistema inteiro.

E o pior, sem saber o que está fazendo.

Porque, no fim, o maior erro da saúde moderna talvez seja a ideia de que você consegue compensar um organismo desorganizado adicionando mais coisas nele.

Às vezes o problema não é falta de estímulo, muito pelo contrário, é excesso.

Excesso de demanda.

Excesso de inflamação.

Excesso de desgaste.

Excesso de compensação.

E nenhum complexo vitamínico consegue sustentar um corpo que já perdeu capacidade de sustentar a própria vida.